A JR-IRJ recebeu o relato de um de seus militantes, Daniel Santos, que atualmente participa de um projeto da Unicamp no Haiti. O texto foi enviado antes do terremoto que atingiu o país, no dia 12 de janeiro. Daniel e seu grupo não se feriu, mas enviou notícias de que a situação é alarmante.
“Chegar ao Haiti é impactante. Fiz o trajeto de ônibus da Republica Dominicana até o Haiti, participando do grupo de estudantes da Unicamp em treinamento para pesquisa de campo em Antropologia. Pode-se perceber a diferença de um país para o outro, mesmo estando na mesma ilha.
No lado haitiano da fronteira, o controle dos passaportes é feito sem luz, pois falta energia elétrica. Na estrada de terra, muitas casas de camponeses no meio de um deserto verde rasteiro, e algumas minas de extração de areia para a construção civil.
A presença das tropas de ocupação da ONU - MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti) dirigida pelo governo brasileiro garantem a segurança da aplicação da política do imperialismo, em uma verdadeira desestabilização do país.
As tropas brasileiras fazem a segurança da zona industrial aqui na capital, a zona franca haitiana. Os trabalhadores dessa zona franca não possuem o direito de se sindicalizar, segundo informações de Fignole e Rapahel Dukens, dois dirigentes sindicais que estiveram presentes no 10º CONCUT e quem eu tive a oportunidade de entrevistar aqui no Haiti. Segundo eles, quando os trabalhadores da zona franca quiseram fazer greve para reivindicar aumento de salário, foram agredidos pela MINUSTAH.
As tropas da ONU também cercaram Cite Soleil, para reprimir a organização do povo, quando souberam de boatos que manifestantes de Cite Soleil apoiariam a greve dos estudantes haitianos.
A presença das tropas da ONU, cujo maior efetivo é do exército brasileiro, é um verdadeiro entrave para a organização popular, sindical e da juventude, protegendo os interesses das empresas privadas, os quais são responsáveis pela exploração do povo haitiano e em grande parte são estrangeiras.
"Como a MINUSTAH poderia ser uma força de estabilização do Haiti se eles não estão fazendo nada para acabar com a pobreza desse país? Como teremos estabilidade num país faminto?" Essa é a pergunta feita por Jean Milus Rocheman, assistente social, formado pela Universidade do Estado do Haiti.
Portanto, em apenas uma semana aqui, já se torna visível as contradições entre discurso e pratica da ONU. Fica claro também que a presença das tropas brasileiras está envolvida em um projeto imperialista, em parceria com as grandes potências internacionais, EUA, França e Canadá.
Depois de mais de 5 anos de ocupação militar, a exigência ao governo Lula de retirada das tropas é mais viva e necessária. Só respeitando a soberania nacional haitiana é que nós brasileiros iremos ajudar concretamente o nosso povo irmão.
Port-au-Prince, 08 de Janeiro de 2010. Daniel Santos”
Daniel é militante da JR-IRJ, núcleo Campinas, e membro do Conselho Nacional.
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